quarta-feira, 13 de março de 2019

ParadÓcios




O ócio tomou conta de mim
Do meu corpo, da minha alma
Ocupou os espaços vazios
Minhas beiradas calmas.
Estive ocupada com o nada
Nenhum patrão dando ordens
Nem funcionário a dizer palavras.
O ócio desfez o meu rosto
Minha utilidade renunciada
Pela loucura do existir.
Nenhum emprego
Nenhuma proposta
Nenhuma dignidade hipócrita...
Ai, o ócio criativo!

domingo, 6 de janeiro de 2019

Poema do Ano 19 do Século XXI


Ainda há tempo...
De responder à mensagem
De desbloquear o amigo
De priorizar encontros
De visitar um sofrido
De perdoar o errado
De fazer pelo certo
De abraçar sentimentos
De esvair pensamentos
De agradecer
De vencer
De amar
De viver
“As pessoas não são más
Elas só estão perdidas”

Isoladas em suas vidas
Presas em suas verdades
Perdidas em suas ilusões
Montadas em seus egos
É século vinte e um
Dois e dois somam um
Subtraia seu preconceito
Adicione  empatia e respeito
Saia da caverna e do abrigo
E cuide do outro
Como quem olha
Por si perdido.

domingo, 21 de outubro de 2018

Carta para um ser malquisto



Você abriu o caixa da amizade e financiou suas companhias, criou o livro das contas vazias, escolheu a quem daria o crédito e a quem não daria, abriu feridas nos mais fracos, provou sua covardia. Você não presta, é um ser repulsivo para a existência sadia. Enquanto anota em sua caderneta quem participa de sua mesa por hipocrisia. Sua prepotência é a mesma arma com que humilha quem não pertence a sua roda de amigos, e é letal para seu próprio vício em comprar companhias. Dispenso seu beijo como quem despreza o sexo vulgar, é com esse tipo de mulher que vai se relacionar: a puta, a santa, a vadia, a proibida, sua sina é pecar.  Do lado de cá há o bem, o limpo, a bondade, a classe no amar. Do seu lado, o interesse, o sujo, a idolatria diante de quem oferece copos para brindar. Tenha vergonha em olhar nos meus olhos onde não há no que você se espelhar. Em minh’ alma a pureza a afasta e a faz rastejar. Um dia fui caça a lhe querer presa para me acompanhar, e o destino sábio e amigo não quis esse abrigo mortal no aproximar. Meus amigos são loucos e santos, são rimas leves, versos que se costuram na verdadeira amizade e no bem estar. Sua sina é servir até na mesa onde o amor não está!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Uma história de tanto progresso

René Magritte
Rachel respirou o ar da contemporaneidade. Pirou. Desembarcou no mar de hipocrisias, mergulhou no espelho de sua cidade. Rachel transitou por todos os caminhos distorcidos na selva de helicópteros urbanos. O tempo passou. Esqueceram que era uma transeunte feroz, que cobiçava todas as esquinas da Avenida Sete ao Corredor da Vitória. Essa era sua glória, lembrar-se dos bondes da cidade de confrontos em bairros submissos. Toda a narrativa construída para vencedores esquecidos. Rachel não sai mais de casa, enriqueceu e comprou um drone para fazer toda sua jornada, sair é desgastante, requer banho, se arrumar, pentear o cabelo, vestir-se, escolher o figurino adequado ao evento. Do drone, de súbito, tudo fica mais fácil, observar o mundo pelo microscópio de asas.

Rachel conseguiu um trabalho home office, acostumou-se com as redes sociais e tinha o plano de, com sua genialidade,  devolver ao sistema tudo que lhe foi sugado, todos os investimentos que fez em escolas, Universidade, qualificações e estágios não remunerados. Contou cada bitcoin gasto em seus 5 anos de preparo profissional. E agora, depois de formada, atua como autônoma em sua própria residência, que lhe é, paralelamente, casa e escritório.

De sua janela, aliás, de seu microscópio aéreo tinha a vista para a Baía de Todos-os-Santos e de cada passante a raios de distância do seu edifício. Acostumou-se, não saiu mais da casca. Mara era a secretária do lar que fazia para ela todo serviço externo.  As compras do mercado, a feira, ou de coisas necessárias ao dia a dia da rotina de todo vivente civilizado.

O fato de ser uma mulher também a assustava. Era sozinha e não se sentia à vontade na rua de predadores dominados por seus desejos passionais e patriarcalistas. O sistema era um velho bruto e sujo que devorava seus sonhos a cada segundo que pensava em sair da esfera familiar. Não era uma zona de conforto, era o desconforto da convivência coletiva em que todos alimentam a máquina etnocêntrica, evolucionista, racionalista, machista, a digerir cada capital centralmente produzido. Tecnologia de ponta é o sistema sempre erguido.

Rachel entendeu, desvendou as técnicas modernas de sobrevivência, após anos de muito trabalho interno, microempreendeu-se, juntou fortuna, adquiriu o drone, com o qual navega por cima de uma cidade decaída entre valores modernos e comportamentos mundialmente retrógrados. O sistema faliu. De onde está, Rachel anteviu.